domingo, 9 de novembro de 2008

Copy paste com vénia

Texto da Fernanda Câncio, tirado daqui:

Temos uma Constituição que proíbe a discriminação em função da orientação sexual (há 4 anos), e leis que espelham a Constituição – à excepção do Código Civil e do que estabelece quanto ao casamento. Mas as leis, pese embora a sua enorme importância, não são tudo.

Por exemplo, todas as narrativas sobre o amor e a sexualidade que são apresentadas e transmitidas às crianças e aos jovens, em casa, na escola, nos livros, na tv, no cinema tendem a excluir, elidir, discriminar a homossexualidade. A generalidade dos pais, mesmo os pais mais aparentemente liberais, lidam muito mal com a possibilidade de os filhos terem uma orientação sexual diversa da sua ou daquela que consideram 'normal' e 'desejável' – ou, nos piores dos casos, 'a única possível'.

Dir-se-á que não se podem reescrever os contos de fadas e de príncipes e princesas. Mas é óbvio que os contos infantis são o que quisermos que sejam, e espelham muito claramente os nossos preconceitos e estereótipos, veiculando-os. Na recente campanha que ocorreu em alguns Estados americanos – Califórnia, Arizona, Florida -- para alterar as constituições respectivas por forma a impedir o casamento das pessoas do mesmo sexo, um vídeo mostrava uma criança que voltava da escola e narrava a uma mãe horrorizada a história que lá lhe haviam contado: o príncipe que casara com o príncipe. A campanha resultou.

A ideia de que o império da normatividade heterossexista em todas as narrativas dirigidas às crianças, das fábulas aos brinquedos, é uma espécie de garantia contra a homossexualidade parece um pouco disparatada demais para ser verdade. Como disparatada demais surge a ideia de que alguém fica homossexual por ouvir uma história de amor entre duas pessoas do mesmo sexo. Mas é a ideia que está subjacente à generalidade dos curricula quer escolares quer parentais – e que teve em Portugal a sua ilustração na célebre polémica de 2005 lançada por um artigo do jornal Expresso em que se 'denunciavam' (entre muitas aspas) os conteúdos de um alegado programa de educação sexual do ministério da educação e da apf em que um dos exercícios mais comuns seria pôr os alunos do secundário a imaginar uma viagem a um país em que a norma seria a homossexualidade.

O escândalo que acolheu esta possibilidade é bem demonstrador do estado lastimoso das coisas. Inimaginável, um país onde a maioria seja homossexual e os heterossexuais sejam a minoria discriminada – não, não queremos pôr os jovens a pensar, nem a questionar, nem por um instante, o império indiscutível da heterossexualidade e a indiscutível razão da discriminação. Era o que faltava. Não queremos, sobretudo, aceitar a possibilidade de que haja, entre esses jovens, quem necessite desesperadamente de se sentir menos isolado naquilo que sente, quem necessite de saber que não é uma aberração, que há no mundo muito mais gente a sentir o mesmo e que não há que ter vergonha nem desesperar.

Seja o que for que se julga estar a fazer pelas crianças e jovens quando se lhes recusa qualquer alusão que não seja negativa e até violenta à possibilidade de vivência de uma sexualidade não exclusivamente heterossexual, não é decerto de amor que se trata. Tenho poucas dúvidas de que se trata, precisamente, do contrário do amor. Um pai ou um educador que faz um jovem sentir que só o respeitará e amará se amar alguém de sexo diferente está a dizer que não o ama nem o respeita pelo que é, mas apenas pelo que quer ele seja – uma espécie de prolongamento de si e dos seus desejos e frustrações. Não há nada de mais egoísta e de mais cruel.

Ilustrando o contrário desse egoísmo e crueldade, o mayor republicano de San Diego (Califórnia), Jerry Sanders, assumiu, num discurso emocionado na véspera das eleições americanas e do referendo californiano, que mudara de ideias acerca do casamento entre pessoas do mesmo sexo, ao qual se opusera antes: "Não posso olhar nos olhos a minha filha Lisa, que é homossexual, e dizer que a relação dela, a vida dela, tem menos valor que o casamento que partilho com a minha mulher." Sanders descobriu, embora tarde, que não é possível defender a teoria do 'separate but equal', porque quando separamos, quando afastamos, estamos a dizer que não é igual. Sanders descobriu, embora tarde – mas a tempo – o que é o amor e o que ele implica.

2 comentários:

Aequillibrium disse...

abracinho...

saudades...

andré disse...

gosto muito da fernanda câncio. gosto do estilo, sempre mordaz. e ainda por cima é gira...