segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Amor terrorista - Diz Miguel Sousa Tavares

e pode ler-se aqui neste blog...

quem nunca sofreu por amor, nunca aprenderá a amar.

amar é o terror de perder o outro, é o medo do silêncio e do quarto deserto, de tudo o que se pensa sem pode falar, do que se murmura a sós sem ter a quem dizer em voz alta.

é preciso sentir esse terror para saber o que é amar.

e, quando tudo enfim desaba, quando o outro partiu e deixou atrás de si o silêncio e o quarto deserto, por entre os escombros e a humilhação de uma felicidade desfeita, resta o orgulho de saber quem se amou.


Comentário: O terror de perder o outro, o medo do silêncio e do quarto deserto, o pensar mas não poder falar pode ter a ver com o amor. Mas é também muitas vezes causa directa do desabamento final aparentemente que refere o escritor.

Este amor terrorista não me causa grande admiração. O amor sofredor não é certamente algo a que almeje. Sim, quem tem cu tem medo (pardon my french). Mas amar é também ter a coragem de arriscar perder o outro para bem dos dois. É falar o que se pensa, é saber passar por momentos de silêncio e de deserto. É ser mais forte que o terror.

Acredito que só se ama realmente quando se é livre. O que inclui a liberdade que apenas se tem quando se sabe ser feliz sozinho. O amor saudável é gratuito. Não se ama alguém porque é preciso estar com alguém, ama-se porque isso dá outra dimensão à vida.

Nos momentos em que há o risco de perder o outro, há certamente angústia, desespero, terror. Mas para quem sabe amar, há também a serenidade de buscar os melhores caminhos (para o outro e para si mesmo). O terror clarifica o quanto se gosta do outro, mas não pode ter maior papel que isso.

1 comentário:

bruno ribeiro tavares disse...

o visado não sou eu.. mas quase, porque fui em quem transcreveu aquele excerto d'o rio das flores, de mst.

é evidente que o terror é a causa do desabamento final, da loucura a que por vezes chegamos. o terror e o medo são responsáveis, tantas vezes, pelas atitudes mais desesperadas.. mais desesperantes.

não padeço de amor terrorista. tenho medo da solidão. tenho receio de (re)aprender a viver sozinho, pensar em mim e não em nós. foi por ler, no parágrafo transcrito, a referência a este temor, a esta sensação estranha de querer e saber que não se pode, nem deve, que o trouxe à rapariga do brinco de pérola.

amar é também ter a coragem de arriscar perder o outro para bem dos dois. sim. é verdade.

mas e amar não é querer partilhar o que de bom temos? amar não é querer o melhor para o outro? amar não é querer manter esta proximidade que nos enche, que nos faz sentir vivos?

a serenidade não se alcança logo no momento da partida. é preciso saber ver o outro à distância, numa posição já de não regresso.

mas essa serenidade faz falta agora, quando a angústia da perda nos sufoca.